A invasão chinesa no setor ferroviário

Matéria que faz parte integrante da Revista Ferroviária, edição de Setembro/Outubro de 2017.

 Foto: Divulgação/CRRC

Uma das histórias mais curiosas a respeito da origem de uma palavra vem da China. Neste país, por dois ideogramas: um quer dizer perigo; o outro, oportunidade. De acordo com a sabedoria oriental, crise pode ser perdição, mas também glória; não só a morte, como também renascimento. Tudo depende de como ela será administrada por governos, empresas e cidadãos. Essa peculiaridade do mandarim parece ser levada ao pé da letra pelos chineses no mundo dos negócios. Prova disso é o tamanho do apetite de empresas daquele país em terras tupiniquins. A recessão econômica que reduziu o Produto Interno Bruto brasileiro, paralisou projetos, deixou milhões de desempregados e fez diminuir o número de investidores nacionais e estrangeiros não assusta os chineses. Pelo contrário, para eles, o Brasil continua sendo um negócio da China.

Setores como energia elétrica e infraestrutura estão na mira dos chineses, além de atividades como mineração, siderurgia, telecomunicações, automotiva e agronegócio. No que diz respeito à infraestrutura, os expressivos volumes de recursos dos chineses já aparecem nas estatísticas do total de investimentos diretos no país em 2016, e acumulou 0,5% neste ano até julho. Os Estados Unidos continuam na liderança com 12,2% em 2016, percentual que saltou para 26,7% neste ano.

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Para o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang, o Brasil em crise virou a grande oportunidade para os chineses ampliarem os negócios para o risco e coragem para investir no atual momento do Brasil”, reforça.

Segundo Tang, dois fatores contribuíram para a estratégia de médio e longo prazos chinesa. Um deles foi o avanço da Operação Lava-Jato, que abriu caminho para empresas estrangeiras entrarem no segmento de construção civil – mercado que até então era muito fechado e restrito a empreiteiras brasileiras, que hoje enfrentam sua casa, vai atrair uma grande quantidade de pessoas, não?", compara Tang.

Projetos em vista

Apesar de a maioria das transações fechadas pelos orientais se concentrar em energia – 97% do volume aportado no primeiro semestre de 2017 –, o setor de infraestrutura vem ganhando espaço. Já há bons exemplos do apetite dos chineses na área portuária: a aquisição de 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), anunciada em setembro pela estatal China Merchants Port Holding (CMPorts), por R$ 2,9 bilhões. Outra empresa, a China Communications Construction Company (CCCC) – a maior estatal de infraestrutura da China – assinou memorando de entendimento com um fundo de investimentos para a construção conjunta do Terminal Graneleiro Babitonga, um projeto privado em São Francisco do Sul (SC), ao custo de R$ 1,6 bilhão.

Com relação aos empreendimentos ferroviários, Tang é taxativo: “A China tem interesse em todos os projetos de ferrovias viáveis atualmente no Brasil”. Nessa lista, estão Ferrovia Norte-Sul, cuja licitação está prevista para fevereiro de 2018. O governo espera leiloar um trecho de 1.537 quilômetros que já está quase pronto entre Porto Nacional (GO) e Estrela d’Oeste (SP) — faltam cerca de 10% das obras entre Ouro Verde, em Goiás, e a cidade paulista.

No modelo de concessão, a empresa privada terá direito de passagem em outras ferrovias, uma vez que o pedaço a ser leiloado não tem acesso direto a portos. Nas renovações dos contratos de concessão com as operadoras, o governo está exigindo as condições de passagem da carga originada nesse trecho da Norte-Sul. Entre os interessados no leilão estão a construtora CCCC e a russa RZD.

Os chineses também querem dar prosseguimento à construção da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que foi concebida para ir de Ilhéus, na Bahia, a Figueirópolis, em Tocantins, mas atualmente apenas o trecho entre Ilhéus e Caetité (BA) – com 537 quilômetros e 70,03% de obras concluídas está qualificado no programa de Parcerias de Investimentos (PPI) anunciado este ano pelo governo. A previsão é que o leilão ocorra durante o segundo semestre de 2018. A Fiol ganhou importância entre os chineses porque seu traçado pode integrar a Ferrovia Bioceânica, orçada em US$ 70 bilhões, que pretende ligar dos Andes.

Existe um enorme interesse dos orientais também pela Ferrogrão, de 933 quilômetros entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), que deve consumir mais de R$ 12,6 bilhões (a licitação está prevista para o ano que vem) e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), também em Mato Grosso.

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