Ao descer do trem, muito cuidado
Danilo Sans || Diário de Mogi das Cruzes
O aviso que pede ao usuário “atenção com o vão entre o trem e a plataforma” não está fixado à toa em todos os veículos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Sobretudo nas estações do Alto Tietê, o passageiro que não tomar cuidado pode acabar se machucando gravemente. Em Braz Cubas, a diferença de nível entre o trem e a plataforma ultrapassa a altura dos joelhos, tornando impossível o acesso autônomo de pessoas com mobilidade reduzida. A CPTM diz que não há previsão para modernizar as estações.
A reportagem de O Diário embarcou em trens para conferir as condições de acesso entre as estações Estudantes, em Mogi, e Calmon Viana, em Poá, e ouviu de usuários que a distância entre o trem e a plataforma é um dos grandes problemas do transporte sobre trilhos na Região.
Na estação Estudantes, a plataforma é mais alta que a entrada do trem. A diferença de nível é de, aproximadamente, 20 centímetros (cm) – um pouco maior que a altura admissível entre a rua e a calçada (cerca de 15 cm). Já em Mogi das Cruzes, o degrau é ainda mais acentuado, suficientemente grande para impedir um cadeirante de sair ou entrar no trem sozinho. O degrau é bem maior que o máximo aceitável para uma escada, de 18 cm.
Não é difícil encontrar passageiros que tenham testemunhado um acidente por causa do desnível. O operador de máquina José Oliveira, de 53 anos, conta que já caiu no vão ao ser empurrado no momento do embarque. “Machuquei costela, braço. Já tem um ano, mas até hoje tenho cicatrizes”, relata.
Oliveira pega quatro trens diferentes todos os dias, em uma rotina que já dura quatro anos. “O que mais tem é gente tropeçando, com dificuldade para entrar por causa do vão. Ontem mesmo, um cara caiu, na estação de Tatuapé. É uma situação lamentável”, acrescenta.
Ao sair da estação Mogi das Cruzes, o maquinista avisa: “cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”. Em Braz Cubas fica o maior desnível encontrado nas estações entre Estudantes e Calmon Viana, com, pelo menos, 50 centímetros. O passageiro precisa literalmente pular do trem para a plataforma.
Jundiapeba foi a única estação onde o desnível não é tão acentuado. Entretanto, a parada tem outros problemas. Na plataforma de embarque sentido a Mogi, todos os bancos – preferenciais ou não – foram instalados em áreas onde a cobertura não é suficiente e ficam à mercê do sol e da chuva.
“Falta de respeito com o usuário”, classifica a dona de casa Edileusa Alves Sales, de 45 anos. “Um idoso ou uma gestante que está esperando o trem, vai precisa esperar em pé se estiver chovendo”, observa.
A propagandista Suzana Monteiro de Oliveira, de 32 anos, diz que já viu “muita gente enroscando o pé no vão entre o trem e a plataforma”. Para ela, a falta de acessibilidade é o maior problema no Alto Tietê. “Eu subia as escadas de Suzano, de Estudantes, todos os dias, por causa do trabalho, e acabei com um cisto no joelho direito por causa disso”, relata.
Em nota, a CPTM diz que a questão do vão entre o trem e a plataforma depende do Governo Federal, já que o espaço ocorre em razão do compartilhamento das vias com os trens de carga, que são mais largos que as composições de passageiros. O problema só deverá ser amenizado com a separação das vias, por meio do Ferroanel, projeto da União.
A companhia diz que emite avisos sonoros orientando os usuários sobre os cuidados que devem ser tomados no embarque e desembarque.
Atrasos
A CPTM destaca ainda que os projetos de modernização das estações Jundiapeba, Braz Cubas, Mogi das Cruzes e Estudantes foram retirados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), neste mês de janeiro, por determinação do Governo Federal. Os recursos eram aguardados desde 2014.
Agora, a estatal afirma que busca novas fontes de recursos financeiros para a modernização das estações, já que não conta mais com as verbas que seriam encaminhadas pelo Ministério das Cidades. Do total de 92 estações, 47 foram reformadas ou reconstruídas.
Com medo, dona Terezinha vai até Estudantes e volta
Moradora de Braz Cubas, a professora aposentada Terezinha de Jesus Silva Too, de 74 anos, não consegue mais descer do trem na estação do Distrito, por causa do tamanho do desnível existente entre o trem e a plataforma. Por causa disso, ela segue até a última estação da linha, Estudantes, e espera o trem retornar, para só então desembarcar, em Braz Cubas mesmo, no lado onde o vão – ainda muito grande – é menor.
“Eu não consigo descer do trem em Braz Cubas porque tenho artrose no joelho. Preciso ir até Estudantes e voltar”, relata. Não é apenas o vão que atrapalha, se ela descer em Braz Cubas, precisará vencer os degraus da passarela para chegar ao outro lado da estação e seguir para casa. “É uma escada que balança muito na hora do rush e está enferrujada”, acrescenta, dizendo que foi proibida pelo médico de subir ou descer escadas. Por causa do tratamento, ela faz constantes viagens de trem até o Hospital do Servidor Público.
Para subir no trem em Braz Cubas, diz, somente no último vagão, onde o degrau é um pouco menor. “Todo mundo se queixa. Tem gente que usa muletas, cadeira de rodas. A reforma deveria começar logo”, avalia.
Uma vez, conta, ela e outros passageiros precisaram carregar a irmã, já falecida, no colo, para que ela pudesse desembarcar do trem. “Não dava para ir até Estudantes. Minha irmã disse que nunca mais viria pra cá se fosse de trem”, relata.
Vereador estuda acionar Estado em ação judicial
O vereador Iduigues Ferreira Martins (PT) promete ingressar com uma ação judicial para obrigar o Governo do Estado a garantir a acessibilidade em todas as estações da Cidade. No ano passado, o petista chegou a enviar uma moção, cobrando melhorias, endereçada ao governador, Geraldo Alckmin (PSDB), à Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos e à presidência da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
“O Governo do Estado respondeu dizendo que as estações vão passar por reformas em breve. Eu acredito que esse ‘em breve’ seja daqui uns 10 anos, porque foi quase esse o tempo que a Estação de Suzano demorou para ficar pronta”, critica.
Para o vereador, a existência de degraus tão perigosos em todas as estações de acesso a Mogi das Cruzes é “uma falta de respeito com o usuário”, sobretudo aqueles que têm mobilidade reduzida, como deficientes físicos e visuais. “Talvez uma decisão judicial obrigue o Estado a dar condições de acessibilidade no trem, que é um espaço público”, ressalta.
Prevista inicialmente para ficar pronta no final de 2015, a obra de modernização da Estação de Mogi das Cruzes segue sem previsão para ter início. A obra foi prometida pelo Governo do Estado em 2012. Inicialmente, o projeto estava avaliado entre R$ 30 e R$ 40 milhões, valor que já foi reajustado uma vez para R$ 70 milhões.
A reportagem de O Diário embarcou em trens para conferir as condições de acesso entre as estações Estudantes, em Mogi, e Calmon Viana, em Poá, e ouviu de usuários que a distância entre o trem e a plataforma é um dos grandes problemas do transporte sobre trilhos na Região.
Na estação Estudantes, a plataforma é mais alta que a entrada do trem. A diferença de nível é de, aproximadamente, 20 centímetros (cm) – um pouco maior que a altura admissível entre a rua e a calçada (cerca de 15 cm). Já em Mogi das Cruzes, o degrau é ainda mais acentuado, suficientemente grande para impedir um cadeirante de sair ou entrar no trem sozinho. O degrau é bem maior que o máximo aceitável para uma escada, de 18 cm.
Não é difícil encontrar passageiros que tenham testemunhado um acidente por causa do desnível. O operador de máquina José Oliveira, de 53 anos, conta que já caiu no vão ao ser empurrado no momento do embarque. “Machuquei costela, braço. Já tem um ano, mas até hoje tenho cicatrizes”, relata.
Oliveira pega quatro trens diferentes todos os dias, em uma rotina que já dura quatro anos. “O que mais tem é gente tropeçando, com dificuldade para entrar por causa do vão. Ontem mesmo, um cara caiu, na estação de Tatuapé. É uma situação lamentável”, acrescenta.
Ao sair da estação Mogi das Cruzes, o maquinista avisa: “cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”. Em Braz Cubas fica o maior desnível encontrado nas estações entre Estudantes e Calmon Viana, com, pelo menos, 50 centímetros. O passageiro precisa literalmente pular do trem para a plataforma.
Jundiapeba foi a única estação onde o desnível não é tão acentuado. Entretanto, a parada tem outros problemas. Na plataforma de embarque sentido a Mogi, todos os bancos – preferenciais ou não – foram instalados em áreas onde a cobertura não é suficiente e ficam à mercê do sol e da chuva.
“Falta de respeito com o usuário”, classifica a dona de casa Edileusa Alves Sales, de 45 anos. “Um idoso ou uma gestante que está esperando o trem, vai precisa esperar em pé se estiver chovendo”, observa.
A propagandista Suzana Monteiro de Oliveira, de 32 anos, diz que já viu “muita gente enroscando o pé no vão entre o trem e a plataforma”. Para ela, a falta de acessibilidade é o maior problema no Alto Tietê. “Eu subia as escadas de Suzano, de Estudantes, todos os dias, por causa do trabalho, e acabei com um cisto no joelho direito por causa disso”, relata.
Em nota, a CPTM diz que a questão do vão entre o trem e a plataforma depende do Governo Federal, já que o espaço ocorre em razão do compartilhamento das vias com os trens de carga, que são mais largos que as composições de passageiros. O problema só deverá ser amenizado com a separação das vias, por meio do Ferroanel, projeto da União.
A companhia diz que emite avisos sonoros orientando os usuários sobre os cuidados que devem ser tomados no embarque e desembarque.
Atrasos
A CPTM destaca ainda que os projetos de modernização das estações Jundiapeba, Braz Cubas, Mogi das Cruzes e Estudantes foram retirados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), neste mês de janeiro, por determinação do Governo Federal. Os recursos eram aguardados desde 2014.
Agora, a estatal afirma que busca novas fontes de recursos financeiros para a modernização das estações, já que não conta mais com as verbas que seriam encaminhadas pelo Ministério das Cidades. Do total de 92 estações, 47 foram reformadas ou reconstruídas.
Com medo, dona Terezinha vai até Estudantes e volta
Moradora de Braz Cubas, a professora aposentada Terezinha de Jesus Silva Too, de 74 anos, não consegue mais descer do trem na estação do Distrito, por causa do tamanho do desnível existente entre o trem e a plataforma. Por causa disso, ela segue até a última estação da linha, Estudantes, e espera o trem retornar, para só então desembarcar, em Braz Cubas mesmo, no lado onde o vão – ainda muito grande – é menor.
“Eu não consigo descer do trem em Braz Cubas porque tenho artrose no joelho. Preciso ir até Estudantes e voltar”, relata. Não é apenas o vão que atrapalha, se ela descer em Braz Cubas, precisará vencer os degraus da passarela para chegar ao outro lado da estação e seguir para casa. “É uma escada que balança muito na hora do rush e está enferrujada”, acrescenta, dizendo que foi proibida pelo médico de subir ou descer escadas. Por causa do tratamento, ela faz constantes viagens de trem até o Hospital do Servidor Público.
Para subir no trem em Braz Cubas, diz, somente no último vagão, onde o degrau é um pouco menor. “Todo mundo se queixa. Tem gente que usa muletas, cadeira de rodas. A reforma deveria começar logo”, avalia.
Uma vez, conta, ela e outros passageiros precisaram carregar a irmã, já falecida, no colo, para que ela pudesse desembarcar do trem. “Não dava para ir até Estudantes. Minha irmã disse que nunca mais viria pra cá se fosse de trem”, relata.
Vereador estuda acionar Estado em ação judicial
O vereador Iduigues Ferreira Martins (PT) promete ingressar com uma ação judicial para obrigar o Governo do Estado a garantir a acessibilidade em todas as estações da Cidade. No ano passado, o petista chegou a enviar uma moção, cobrando melhorias, endereçada ao governador, Geraldo Alckmin (PSDB), à Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos e à presidência da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
“O Governo do Estado respondeu dizendo que as estações vão passar por reformas em breve. Eu acredito que esse ‘em breve’ seja daqui uns 10 anos, porque foi quase esse o tempo que a Estação de Suzano demorou para ficar pronta”, critica.
Para o vereador, a existência de degraus tão perigosos em todas as estações de acesso a Mogi das Cruzes é “uma falta de respeito com o usuário”, sobretudo aqueles que têm mobilidade reduzida, como deficientes físicos e visuais. “Talvez uma decisão judicial obrigue o Estado a dar condições de acessibilidade no trem, que é um espaço público”, ressalta.
Prevista inicialmente para ficar pronta no final de 2015, a obra de modernização da Estação de Mogi das Cruzes segue sem previsão para ter início. A obra foi prometida pelo Governo do Estado em 2012. Inicialmente, o projeto estava avaliado entre R$ 30 e R$ 40 milhões, valor que já foi reajustado uma vez para R$ 70 milhões.


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