Trem parado leva medo a bairro de Campinas

Por Jaqueline Harumi || Correio Popular de Campinas


Composição com 40 vagões da MRS parada na Vila Proost de Souza há 15 dias: preocupação para moradores || Créditos: Dominique Torquato/AAN

Os constantes “abandonos” de vagões no trecho da linha férrea paralelo à Rua Comendador Bernardo Alves Teixeira, na Vila Proost de Souza, em Campinas, trouxeram insegurança para os moradores da via nos últimos quatro anos, por servirem de esconderijo para pessoas suspeitas. Os vizinhos dos trilhos alegam que só não são vítimas de assalto porque a própria vizinhança frustra as ações criminosas. A mais recente dor de cabeça está há 15 dias parada no local: cerca de 40 vagões. No período, aconteceram ao menos três investidas de suspeitos.

“Agora no Natal, na hora que saíamos para o almoço, nós tivemos que ficar aguardando um pouco porque tinha um cara sentado na calçada e correu pra se esconder atrás do vagão. Na noite anterior, nós vimos pessoas caminhando atrás dos vagões e, como estava sem o segurança que circula aqui no bairro, ficamos dando volta no quarteirão para poder entrar em casa porque a gente não sabe o que vai acontecer”, relata uma moradora, que prefere não ser identificada.

O autônomo Sérgio Henrique da Silva, de 46 anos, e duas vizinhas conseguiram evitar que fossem assaltados na tarde da última quinta-feira quando ajudava uma delas a instalar um forno novo. “Estava com um pouco do portão aberto. Tinha dois suspeitos aparentemente bem vestidos, um com sacola de compra, atrás dos vagões. Viram o portão aberto, passaram por baixo dos vagões e vieram na nossa direção”, lembra Silva, que encarou uma arma apontada por um dos homens. “Outra vizinha estava sentada na calçada com o celular. Tranquei o portão da minha vizinha, entrei e fechei o meu, e ainda abri para a vizinha que estava na calçada entrar”, relata. A Polícia Militar (PM) foi acionada, no entanto, não chegou a tempo de detê-los. De acordo com os moradores, no dia seguinte ainda foi encontrado na via um HB20 roubado.

Não é a primeira vez que o autônomo e a vizinha a quem ajudava, a dona de casa Conceição Rizzo Pereira, de 75 anos, se deparam com uma ação criminosa. Há cerca de três meses eles relatam que um suspeito pulou o muro e invadiu o quintal de Conceição. “Estava sozinha. Se tivesse com a porta aberta e a inquilina que estava vindo para casa não tivesse visto ele pulando o muro e me ligado para avisar, ele teria me rendido”, comenta a dona de casa. O invasor fugiu correndo sem levar nada e com o vizinho e o genro no encalço com um pedaço de pau e um machado, porém, não foi detido. Conforme os depoimentos, outra vizinha teve a casa invadida há um mês e o invasor fugiu sem levar nada também diante da reação de outros moradores. “Graças a Deus nós temos o contato e a ajuda um do outro. Não é certo esse negócio parado aí”, desabafa Conceição.

Morador do endereço há 35 anos, o comerciante Eduardo Luis Ribeiro, de 48 anos, lamenta a situação. “Este ano teve uma composição que ficou três meses parada. É um perigo à noite porque é uma escuridão”, diz. A opinião é compartilhada pelo representante comercial José Martino, de 55 anos, que há 25 anos está no bairro. “Chega à noite, abro o portão e até entrar alguém pode aparecer, daí é complicado. Tem um segurança que passa, mas não é constante.”

MRS Logística
A MRS Logística, responsável pelos vagões, afirmou que trata-se de uma operação normal e negou haver alguma irregularidade, considerando as ações criminosas como caso de segurança pública. “Não temos meios nem a legitimidade para tomar nenhuma ação direta, a não ser tentar buscar uma alternativa ao local de parada, dentro das nossas possibilidades físicas e de logística. Vamos estudar se há essa possibilidade”, disse através da assessoria de imprensa. A Rumo, responsável pelo trecho da ferrovia mencionado, informou que a composição está devidamente parada, sem interdição de passagem, e aguarda liberação para seguir viagem.

A companhia da PM que atende a região reconhece a existência de dois assaltos no local mencionado nos últimos dias, além de tentativas de assalto, no entanto alega não poder relacionar os crimes à presença dos vagões e afirma realizar o patrulhamento preventivo no endereço assim como em toda a região de sua abrangência.

O Comando de Policiamento do Interior 2 (CPI-2) lembrou que pela legislação a segurança da linha férrea é responsabilidade da Polícia Ferroviária Federal, no entanto, o próprio Ministério da Justiça desconhece a existência do órgão previsto em lei.

Comentários

Postagens mais visitadas